O fio da meada - Roseana Murray
Sinopse:
Confira:
Site da autora:
http://www.roseanamurray.com/livros.asp
Blog da autora:
http://blogdaroseana.blogspot.com/
Edição de 2005
A verdadeira história dos três porquinhosJon Scieszka“Em todo o mundo as pessoas conhecem a história dos três porquinhos. Ou, pelo menos, acham que conhecem.Mas eu vou contar um segredo. Ninguém conhece a história verdadeira, porque ninguém jamais escutou o meu lado da história.Eu sou o lobo. Alexandre T. Lobo. Pode me chamar de Alex.Eu não sei como começou todo esse papo de Lobo Mau, mas está completamente errado.Talvez seja por causa de nossa alimentação.Olha, não é culpa minha se os lobos comem bichos engraçadinhos como coelhos e porquinhos. É apenas nosso jeito de ser. Se os cheeseburguers fossem uma gracinha, todos iam achar que você é Mau.Mas como eu estava dizendo, todo esse papo de Lobo Mau está errado.A verdadeira história é sobre um espirro e uma xícara de açúcar. E eu vou explicar pra vocês.No tempo do Era uma Vez, eu estava fazendo um bolo de aniversário para minha querida e amada vovozinha.Eu estava com um resfriado terrível, espirrando muito.Fiquei sem açúcar.Então resolvi pedir uma xícara de açúcar emprestada para o meu vizinho.Agora, esse vizinho era um porco.E não era muito inteligente também.Ele tinha construído a sua casa toda de palha.Dá para acreditar? Quero dizer, quem tem a cabeça no lugar não constrói uma casa de palha.É claro que, assim que bati, a porta caiu. Eu não sou de ir entrando assim na casa dos outros.Então chamei: “Porquinho, você está aí?”. Ninguém respondeu.Eu estava a ponto de voltar para casa sem o açúcar para o bolo de aniversário da minha querida e amada vovozinha.Foi quando meu nariz começou a coçar. Senti o espirro vindo. Então inflei. E bufei.E soltei um grande espirro.Sabe o que aconteceu? Aquela maldita casa de palha desmoronou inteirinha. E bem no meio do monte de palha estava o Primeiro Porquinho – mortinho da silva.Ele estava em casa o tempo todo.Seria um desperdício deixar um presunto em excelente estado no meio daquela palha toda. Então eu o comi. Imagine o porquinho como se ele fosse um grande cheeseburguer dando sopa. Você não comeria também?Bom, eu estava me sentindo um pouco melhor do resfriado, mas ainda não tinha minha xícara de açúcar. Então fui até a casa do próximo vizinho.Esse vizinho era irmão do primeiro Porquinho. Ele era um pouco mais esperto, mas não muito.Tinha construído a sua casa com lenha.Toquei a campainha da casa de lenha. Ninguém respondeu.Chamei: “Senhor Porco, senhor Porco, está em casa?”.Ele gritou de volta: “Vá embora Lobo. Você não pode entrar. Estou fazendo a barba de minhas bochechas rechonchudas”.Eu tinha acabado de pegar na maçaneta quando senti outro espirro vindo.Eu inflei. E bufei. E tentei cobrir minha boca, mas soltei um grande espirro.Você não vai acreditar, mas a casa desse sujeito desmoronou igualzinho a do irmão dele.Quando a poeira baixou, lá estava o Segundo Porquinho – mortinho da silva. Palavra de honra.Na certa você sabe que a comida estraga se ficar abandonada ao relento.Então fiz a única coisa que tinha de ser feita.Jantei de novo.Era o mesmo que repetir um prato.”Eu estava ficando tremendamente empanturrado.Mas estava um pouco melhor do resfriado.E eu ainda não conseguira aquela xícara de açúcar para o bolo de aniversário da minha querida e amada vovozinha. Então fui até a casa do próximo vizinho.Esse sujeito era irmão do Primeiro e do Segundo Porquinho.Devia ser o crânio da família.A casa dele era de tijolos.Bati na casa de tijolos. Ninguém respondeu.Eu chamei: “Senhor Porco, o senhor está?”.E sabe o que aquele leitãozinho atrevido me respondeu?“Cai fora daqui Lobo. Não me amole mais.”E ainda dizem que eu é quem sou grosseiro.Ele tinha provavelmente um saco cheio de açúcar. E não ia me dar nem uma xicrinha para o bolo de aniversário da minha querida e amada vovozinha.Que porco!!Eu estava quase indo embora para fazer um lindo cartão de aniversário em vez do bolo, quando senti um espirro vindo.Eu inflei.E bufei.E espirrei de novo.Então o Terceiro Porquinho gritou:“E a sua velha vovozinha pode ir às favas.”Sabe, sou um cara geralmente bem calmo. Mas, quando alguém fala desse jeito da minha vovozinha, eu perco a cabeça.Quando a polícia chegou, é evidente que eu estava tentando arrebentar a porta daquele Porco. E todo o tempo eu estava inflando, bufando e espirrando e fazendo uma barulheira.O resto, como dizem é história.Tive muito azar: os repórteres descobriram que eu tinha jantado os outros dois porquinhos. E acharam que a história de um sujeito doente pedindo açúcar emprestado não era muito emocionante. Então enfeitaram e exageraram a história com todo aquele negócio de “bufar, assoprar e derrubar sua casa”.E fizeram de mim o Lobo Mau.É isso aí.Esta é a verdadeira história.Fui vítima de uma armação.Mas... Será que você pode me emprestar uma xícara de açúcar???
GUILHERME AUGUSTO ARAÚJO FERNANDESEra uma vez um menino chamado Guilherme Augusto Araújo Fernandes e ele nem era tão velho assim.
Sua casa era ao lado de um asilo de velhos e ele conhecia todo mundo que vivia lá.
Ele gostava da Sra. Silvano que tocava piano.
Ele ouvia as histórias arrepiantes que lhe contava o Sr. Cervantes.
Ele brincava com o Sr. Valdemar que adorava remar.
Ajudava a Sra. Mandala que andava com uma bengala.
E admirava o Sr. Possante que tinha voz de gigante.
Mas a pessoa que ele mais gostava era a Sra. Antônia Maria Diniz Cordeiro, porque ela também tinha quatro nomes, como ele.
Ele a chamava de Dona Antônia e contava-lhe todos os seus segredos.
Um dia, Guilherme Augusto escutou sua mãe e seu pai conversando sobre Dona Antônia.
- Coitada da velhinha - disse sua mãe.
- Por que ela é coitada? - perguntou Guilherme Augusto.
- Porque ela perdeu a memória - respondeu seu pai.
- Também, não é para menos - disse sua mãe. - Afinal, ela já tem noventa e seis anos.
- O que é memória? - perguntou Guilherme Augusto.
Ele vivia fazendo perguntas.
- É algo de que você se lembre - respondeu o pai.
Mas Guilherme Augusto queria saber mais; então, ele procurou a Sra. Silvano que tocava piano.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo quente, meu filho, algo quente.
Ele procurou o Sr. Cervantes que lhe contava histórias arrepiantes.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo bem antigo, meu caro, algo bem antigo.
Ele procurou o Sr. Valdemar que adorava remar.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo que o faz chorar, meu menino, algo que o faz chorar.
Ele procurou a Sra. Mandala que andava com uma bengala.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo que o faz rir, meu querido, algo que o faz rir.
Ele procurou o Sr. Possante que tinha voz de gigante.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo que vale ouro, meu jovem, algo que vale ouro.
Então Guilherme Augusto voltou para casa, para procurar memórias para Dona Antônia, já que ela havia perdido as suas.
Ele procurou uma antiga caixa de sapatos cheia de conchas, guardadas há muito tempo, e colocou-as com cuidado numa cesta.
Ele achou a marionete, que sempre fizera todo mundo rir, e colocou-a na cesta também.
Ele lembrou-se, com tristeza, da medalha que seu avô lhe tinha dado e colocou-a delicadamente ao lado das conchas.
Depois achou sua bola de futebol, que para ele valia ouro; por fim, entrou no galinheiro e pegou um ovo fresquinho, ainda quente, debaixo da galinha.
Aí, Guilherme Augusto foi visitar Dona Antônia e deu a ela, uma por uma, cada coisa de sua cesta.
"Que criança adorável que me traz essas coisas maravilhosas", pensou Dona Antônia.
E então ela começou a se lembrar.
Ela segurou o ovo ainda quente e contou a Guilherme Augusto sobre um ovinho azul, todo pintado, que havia encontrado uma vez, dentro de um ninho, no jardim da casa de sua tia.
Ela encostou uma das conchas em seu ouvido e lembrou da vez que tinha ido à praia de bonde, há muito tempo, e como sentira calor com suas botas de amarrar.
Ela pegou a medalha e lembrou, com tristeza, de seu irmão mais velho, que havia ido para guerra e que nunca voltou.
Ela sorriu para a marionete e lembrou da vez em que mostrara uma para sua irmãzinha, que rira às gargalhadas, com a boca cheia de mingau.
Ela jogou a bola de futebol para Guilherme Augusto e lembrou do dia em que se conheceram e de todos os segredos que haviam compartilhado.
E os dois sorriram e sorriram, pois toda a memória perdida de Dona Antônia tinha sido encontrada, por um menino que nem era tão velho assim.
Fonte:
FOX, Mem. Guilherme Augusto Araújo Fernandes. São Paulo: Brinque-Book, 1984.
O livro contempla de forma agradável questões referentes as memórias da família, as memórias boas e ruins, possibilitando um debate sobre os objetos como portadores de memórias, a importância da memória dos idosos e a valorização de sua sabedoria.
Disponível em: http://www.educarede.org.br/educa/img_conteudo/Hist%C3%B3ria%20e%20Mem%C3%B3ria.htm
